Parte 1 - Andreas (English / Español / Français)
O Galo
Aquela noite, sonhei com algo que não sabia se já tinha vivido ou ainda ia viver. Não lembro quantos anos eu tinha. Só sei que estava nu. O corpo pequeno, a pele grudada ao calor.
O avô me estendeu uma taça pequena. Um líquido negro. Amargo. O gosto me golpeou a língua como se eu mastigasse raízes velhas; senti a própria terra na boca. Não perguntei nada. Ele também não explicou. Derramou água sobre mim. Era morna, quase doce, e na luz intensa parecia tingida de rosa. Não sei se era de verdade ou se minha memória pintou essa cor depois.
Passou uma espada sobre meu corpo. A lâmina, afiada, reluzia ao sol como um aviso. Parecia pesada, mas era o fio — não o peso — que impunha respeito. Quando cortou o ar perto da minha pele, o corpo se arrepiou. Meus pés tremeram. Mas não escorreguei.
Depois, passou uma vara seca. Aquela era lisa. Leve. Ele parecia dizer muitas coisas, mas eu não entendia nenhuma. E então, as pedras. Muitas. Algumas brilhavam, guardando fogo por dentro. Na minha ignorância, imaginei que fosse ouro. Ou algo ainda mais antigo. Algo que só nós sabíamos nomear.
Outras, diferentes, deslizavam sob meus pés. Frias. Suaves. Traiçoeiras. Não sei como continuei de pé. Só sabia que o chão me rejeitava, e mesmo assim eu não caía. Meu avô me observava. Não com orgulho. Nem com ternura. Com aquela expressão dele, talhada em pedra: uma paciência antiga, implacável.
— O galo vai cantar três vezes — disse. — Será quando estiver livre.
Fiquei ali. Esperando. A taça vazia numa mão. A outra me dando equilíbrio. As pedras tremendo sob os pés.
O primeiro canto chegou. Áspero. Distante. Algo se quebrou no ar.
O segundo canto. Mais perto. O vento voltou a se mover. Trazia algo que eu já tinha esquecido.
E antes do terceiro... ouvi uma voz. Não era a do meu avô. Era mais jovem. Mais suave. Atravessou-me, como se viesse de um canto sem tempo. Não era um comando. Nem sequer uma voz. Apenas a sensação de que alguém, em algum lugar, me esperava.
O terceiro canto. Não soube se o ouvi fora ou dentro. Só soube que algo em mim se desatou, como uma corda que deixa de se tensionar. Então ele se aproximou. Pegou minha mão, abriu-a com força. Colocou algo dentro. A pedra verde. Fria. Viva.
— Agora é sua — disse. Sua voz não foi uma promessa. Foi um veredito.
A pedra pesava pouco, mas senti que me afundava na terra. Fiquei imóvel. Nu. Fundido ao vento, ao calor, ao tremor das pedras que já não escorregavam.
Eram minhas. Como a ferida. Como esta história.
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