Parte 1 - Andreas (English / Español / Français)
O Cordeiro
Eu tinha dez anos, mas meu corpo ainda não sabia como sustentar o calor da meia-manhã na parcela.
Primeiro amarraram as patas. O atrito da corda contra a pele tinha uma textura áspera, como esfregar madeira seca em carne viva. O cordeiro respirava ofegante. Não sentia medo, mas o ar seco do ambiente se cravava em seu corpo e apertava sua respiração.
— Você vai ajudar o Juano — disse o avô, sem espaço para réplica.
Eu sabia o que estava por vir, mas não me sentia pronto. Quis vomitar. Olhei para Andreas. Seus olhos, normalmente firmes, refletiam agora a mesma incerteza que eu sentia.
— E se eu não quiser fazer isso? — murmurei, mais para mim mesmo do que para os outros.
Meu avô estalou a língua, puxou a corda e apertou o nó de uma só vez sobre as patas do animal. Olhou fixo para mim, sem dureza, mas com uma seriedade que não deixava espaço para fugir.
— Você vai ajudar o Juano — repetiu, como se ao dizer de novo selasse o mandado.
Juano se preparava com a faca na mão. O suor escorria da testa enquanto ele se aproximava do animal. O cordeiro, imóvel, respirava mais devagar, alheio ao que estava prestes a acontecer. Afiou a lâmina perto do pescoço; passou uma vez, depois outra. E então, sem dizer nada, degolou.
— Gael, segura o balde! Não deixa o sangue se perder! — ordenou o avô, com voz grave.
Agarrei o balde com as duas mãos suadas. O som do líquido espesso batendo no metal me fechou a garganta. Parte do sangue caiu dentro, o resto, morno, salpicou a terra seca. O cordeiro soltou um gemido curto. Embora o corte fosse limpo, o corpo se arqueou.
Mas não se foi. O corpo ainda se sacudia. As patas raspavam o chão, o peito subia e descia de dor. Minha respiração disparava. Tentava me firmar, mas as pernas já não respondiam.
— A tua dor só vai fazê-lo sofrer mais. Mantém a calma, Gael — disse o avô, sem tirar os olhos do cordeiro.
Não foi uma ordem; foi quase um pedido.
Senti os dedos molhados, escorregadios em volta do balde. Tentei desviar o olhar do corte; queria fugir, correr. Mas antes que pudesse reagir, Andreas se adiantou e tirou o balde das minhas mãos.
— Eu faço isso — disse em voz baixa.
Juano levantou os olhos, surpreso, mas não disse nada. Meu avô franziu o cenho; tampouco interveio. Andreas me olhou de relance, cuidando para não me constranger. Mantinha o olhar fixo no balde.
O cordeiro parou de se mover. Meus batimentos diminuíram. Soltei o ar. Meu corpo soube antes de mim: eu não consegui conter.
*
Depois do sacrifício, o calor havia cedido um pouco. O avô terminou de dar as últimas instruções a Juano, que continuava concentrado em depenar o cordeiro.
Tinha se formado uma mancha de sangue escuro sobre a terra seca. Fiquei olhando para ela. Havia algo em seu formato, na forma como se espalhara, que me deixava desconfortável.
— Vamos — disse o avô, sacudindo a poeira das mãos. — Venham, vamos dar uma volta.
Caminhamos em silêncio por um caminho que subia entre as mangueiras. Andreas ia alguns passos à frente, chutando pedrinhas; eu o seguia de cabeça baixa, ainda com o cheiro de animal morto preso ao nariz.
O avô levava seu pequeno rádio pendurado no ombro. O de sempre, com a alça preta puída.
— Você ouve música, Gael? — perguntou sem parar de andar.
— Sim — respondi. — Meus pais gostam muito, e meu irmão está me ensinando a tocar violão.
— Seu avô me ensinou bastante sobre música, embora eu ainda não tenha um violão
— disse Andreas, envergonhado.
— Mas há muitos violões no rancho que ninguém usa — falei, sem entender.
Meu avô não respondeu. Continuou andando, como se não tivesse ouvido. Ao chegar à grande pedra que conhecíamos desde pequenos, parou.
— Aqui — disse.
Soprava uma brisa leve com cheiro de terra fresca. Ele ligou o rádio. A estática se misturou aos sons do campo. Uma canção começou a tocar: “Penso che un sogno così non ritorni mai più...”
Sentado, com as mãos apoiadas na pedra, o avô me olhou diretamente.
— O que você sente ao ouvir essa música?
Fiquei pensando um instante. Não entendia as palavras, mas a melodia me envolveu.
— Não tenho certeza... parece falar de alguém que voa. Alguém livre.
Um pequeno sorriso cruzou seu rosto. Não disse nada. Respirou. Três vezes.
Andreas começou a se mover de um lado a outro. Fazia pequenas piruetas, passos breves, brincando com o ritmo da canção. O sol batia direto nele e, por um momento, parecia que a luz vinha de dentro.
Meu avô o observava de sua pedra, com uma expressão viva, mas em silêncio. Tudo naquele instante parecia flutuar: a música, o vento, a calma. Nada precisava ser dito. Mas ele já tinha ido embora.
*
Quando decidimos voltar, meu avô colocou uma mão firme em meu ombro e caminhou ao meu lado.
— Às vezes, não dá pra proteger todo mundo, Gael — disse de repente, olhando pra mim. — Mas isso não quer dizer que não valha a pena tentar.
Não soube o que responder. Mas sabia do que ele falava.
— Você olha diferente, Gael. Isso... não se ensina.
As árvores projetavam sombras longas sobre o caminho. Andreas ia alguns passos à frente, cortando galhos das laranjeiras. Parou, ergueu a cabeça e soprou em direção ao céu, espantando algo... invisível.
— Há coisas que não se esquecem — acrescentou o avô.
Não perguntei nada. Continuei andando. Cada palavra ficou ali, esperando o dia em que eu voltaria pra buscar sentido.
Naquela noite, não consegui dormir. Saí descalço para o pátio, seguindo o zumbido leve dos grilos. Andreas estava lá, sentado sob a luz da lua, com as costas curvadas e as mãos juntas, como se rezasse. Aproximei-me em silêncio e me sentei ao lado dele.
A mancha de sangue ainda estava ali, ao nosso lado.
— Acho que não devia tê-lo deixado morrer — disse.
Andreas não respondeu. Também não se moveu.
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